Taiwan · Toucheng · história portuária

Wushi Harbor: imigração, piratas, comércio e a formação de Toucheng

Antes de desaparecer como grande porto, Wushi Harbor foi uma das principais portas de entrada de migrantes e mercadorias na planície de Lanyang.


Wushi Harbor e a chegada em massa de migrantes

No começo do século XIX, migrantes Han entraram em grande número na planície de Lanyang. A colonização avançou rapidamente e, em pouco mais de uma década, quase não restavam terras consideradas não cultivadas ao norte dos rios.

Os números populacionais usados no estudo mostram a velocidade da transformação. Em 1796 havia cerca de 1.200 Han em Yilan. Em 1810, o total chegava a 42.904 pessoas — aumento de 41.704 em apenas alguns anos, com taxa média anual excepcionalmente elevada. Mesmo depois que o ritmo diminuiu, novos migrantes continuaram chegando ao longo da década de 1820.

Dois caminhos eram fundamentais: a rota terrestre de Caoling e a entrada marítima por Wushi Harbor. Genealogias familiares registram desembarques no porto, e algumas interpretações afirmam que até o grupo de Wu Sha, em 1796, teria chegado por mar. Assim, Wushi Harbor não era apenas um centro comercial, mas parte essencial da história migratória de Yilan.

A tentativa de Lin Hansheng em 1768

Não é possível determinar com certeza quem foi o primeiro Han a tentar cultivar Yilan. Documentos, porém, mencionam Lin Hansheng, natural de Zhangzhou e ligado a proprietários de Tamsui.

Em 1768, ele teria comprado uma embarcação, recrutado arrendatários e navegado até Wushi Harbor com a intenção de abrir terras em Kavalan. O grupo foi atacado por indígenas e Lin Hansheng morreu; a tentativa fracassou. Depois disso, grandes empreendimentos de colonização tornaram-se menos frequentes durante algum tempo, embora comerciantes Han continuassem visitando a região.

Wu Sha e a base de Touwai

Em 1796, aos 66 anos, Wu Sha, de Zhangpu, Zhangzhou, articulou nova entrada. Ele contou com intermediários experientes no contato com comunidades indígenas e recebeu apoio financeiro e alimentos de comerciantes de Tamsui.

O grupo reunia mais de mil pessoas de Zhangzhou, Quanzhou e Guangdong, além de voluntários, intérpretes e outros participantes, e dispunha de armas de fogo. Em 16 de setembro, ocupou a área de Wushi Harbor e construiu uma posição defensiva ao sul, estabelecendo a primeira grande base Han de Touwai, depois Toucheng.

Seguiram-se conflitos com comunidades Kavalan e um recuo temporário dos colonos. No ano seguinte, surtos de varíola afetaram aldeias próximas. Wu Sha participou da distribuição de medicamentos, e uma trégua permitiu negociação de terras.

Com mais migrantes chegando, Wu Sha procurou tornar a ocupação legal perante a administração de Tamsui. Recebeu autorização oficial e passou a recrutar colonos como chefe reconhecido, consolidando a expansão sobre a planície.

Piratas e a importância estratégica do porto

A colonização inicial foi conduzida principalmente por forças locais, enquanto a proteção militar oficial permanecia limitada. A geografia isolada de Yilan e a movimentação marítima atraíam grupos piratas.

Em 1806, o pirata Cai Qian tentou tomar Wushi Harbor e outros pontos. Lideranças locais organizaram voluntários para a defesa. No ano seguinte, Zhu Fen atacou a área de Su’ao transportando ferramentas agrícolas e, segundo os registros, pretendia ocupar terras férteis ao sul dos rios como base permanente.

Forças terrestres e navais comandadas por Yang Tingli e Wang Delu derrotaram Zhu Fen. Esses episódios fizeram a administração Qing perceber que as defesas existentes não alcançavam adequadamente o lado oriental de Taiwan e aumentaram o interesse oficial por Kavalan.

Uma região dependente do transporte por água

Uma descrição histórica ressalta que Lanyang ficava atrás da cadeia de montanhas e tinha população crescente. Quase tudo que era necessário no cotidiano dependia de pequenas embarcações que entravam nos períodos adequados para negociar. Restringir esses barcos, advertia o texto, poderia produzir declínio econômico imediato.

Isso mostra o peso do transporte marítimo e fluvial em Yilan durante a administração Qing. Wushi Harbor fazia parte de uma rede na qual a navegação era muito mais do que complemento às estradas: era a principal infraestrutura de circulação.

De porto principal a formação de Touwai Street

Quando Kavalan recebeu administração formal em 1812, Wushi Harbor já funcionava como um dos principais portos. Em 1826, foi reconhecido como porto oficial autorizado a manter travessias com Wuhumen, em Fuzhou. A fiscalização marítima e as tarefas de defesa ficaram ligadas às autoridades de Toucheng.

O movimento portuário estimulou a consolidação da rua comercial de Touwai. Por volta do período Xianfeng, em meados do século XIX, o centro já tinha forma urbana reconhecível.

O planejamento inicial parece ter se organizado em torno do templo Qingyuan, com divisão de lotes e ruas e estímulo à abertura de lojas. Apesar de mudanças posteriores, Toucheng ainda conserva casas comerciais com mais de um século.

Migração organizada por origem

Os templos ajudam a entender como os migrantes se organizavam. No início da colonização, Wu Sha utilizou um sistema que reunia pessoas de Zhangzhou, Quanzhou e Guangdong, mas distribuía terras por grupos de origem.

Mesmo depois da criação da administração de Kavalan, o princípio permaneceu. Projetos de colonização, obras urbanas e abertura de canais podiam repartir responsabilidades entre pessoas da mesma procedência.

Inscrições preservadas no templo Qingyuan durante a reconstrução de 1889 registram nomes de localidades de origem como Longxi, Nanjing e Zhangpu. Isso mostra que a identidade regional continuava relevante não apenas para a abertura de terras, mas para organização comunitária e atividades religiosas.

Templos como organizações sociais

Construir ou reformar um templo exigia recursos. Como uma família isolada raramente conseguia arcar com o custo, pessoas da mesma origem reuniam dinheiro e trabalho. Lideranças locais coordenavam doações e fortaleciam redes de solidariedade.

Dentro de uma mesma procedência ainda existiam divisões entre grupos “antigos” e “novos”, revelando a importância de alianças em uma sociedade de fronteira. Também havia associações secundárias, possivelmente ligadas a cultos específicos, com nomes próprios e funções de ajuda mútua.

Ao mesmo tempo, aparecem inscrições de doadores que já se identificavam simplesmente como moradores de “Touwai Street”. A partir de 1851, por exemplo, esse tipo de assinatura demonstra que a identidade local começava a complementar — e em alguns contextos substituir — a identificação pela terra ancestral na China.

Qingyuan Temple e as duas datas de fundação

O principal templo de Mazu em Toucheng é o Qingyuan Temple, popularmente chamado de templo de Mazu. É um dos santuários locais cuja fundação pode ser recuada mais longe no tempo e fica no centro da antiga rua.

Existem duas tradições sobre sua origem. Uma liga o nome “Qingyuan” ao primeiro ano de Jiaqing, 1796, e interpreta a construção do templo como celebração da entrada bem-sucedida de Wu Sha e seus companheiros.

A segunda baseia-se numa inscrição em pedra da reconstrução de 1889. O texto afirma que o templo estava sendo renovado 104 anos depois de sua criação, o que levaria a fundação para aproximadamente 1785, no 50º ano de Qianlong.

As duas hipóteses continuam registradas. Mesmo que “Qingyuan” tenha sido escolhido para comemorar 1796, ou que tenha outro sentido auspicioso, o nome passou a representar a memória da abertura de Toucheng.

Materiais do templo e a circulação pelo porto

A forma atual do Qingyuan Temple foi definida sobretudo na reconstrução de 1889. O edifício combina tijolo, madeira e pedra. Grande parte da cantaria foi executada em arenito do norte de Taiwan, conhecido localmente como Aodi stone.

Algumas fundações utilizam granito trazido de fora, associado às chamadas pedras de lastro. Navios que viajavam vazios ou com pouca carga colocavam grandes blocos no fundo para estabilizar a embarcação. Ao chegar, essas pedras podiam ser reaproveitadas como material de construção. Vários edifícios religiosos antigos de Taiwan incorporam peças desse tipo.

As inscrições que descrevem Wushi Harbor

Colunas e painéis do templo guardam referências diretas à paisagem portuária. Uma inscrição descreve montanhas verdes ao redor, água profunda e a ligação simbólica do templo com ilhas de imortais. Outra afirma que a reconstrução fazia “Wushi Harbor e a montanha dourada” ganharem novo brilho.

Há ainda uma frase que evoca águas tranquilas de Wushi Harbor e velas protegidas pela nuvem benevolente de Mazu. Essas imagens fazem sentido porque, no passado, um curso de água chegava ao pátio do templo. A frente do santuário funcionava como um dos locais onde pessoas e mercadorias desembarcavam e embarcavam na rua de Touwai.

Kaicheng Temple e a reunião de quatro cultos

Outro eixo religioso antigo de Toucheng é o atual Kaicheng Temple. O conjunto reúne tradições de quatro templos: o antigo templo budista, o culto ao deus da cidade, o Dazhongye e um santuário ligado a Wu Sha.

Em 1864, uma enchente destruiu o antigo edifício. Moradores organizaram doações e transferiram o templo para a localização atual em Jixiang Road, adotando o nome Kaicheng. Todos os anos, no último dia do sétimo mês lunar, a área participa das celebrações tradicionais de Qianggu.

Notas históricas registram ainda tradições diferentes para a origem das imagens religiosas. Uma diz que uma imagem de Guanyin teria sido trazida da terra natal por Wu Sha; outra afirma que colonos encontraram uma imagem durante a abertura de Touwai. O culto ao deus da cidade também é ligado a uma imagem encontrada depois de uma enchente em 1845. Já Dazhongye teria sido instalado em memória dos colonos mortos durante os primeiros conflitos.

O porto como fio condutor

Imigração, defesa, pirataria, urbanização, templos e comércio aparecem conectados pela mesma infraestrutura: Wushi Harbor. Por ele chegaram pessoas, mercadorias e materiais; ao seu redor cresceu a rua de Touwai; e seus navios deixaram até pedras incorporadas aos edifícios.

Por isso, compreender a história do porto é também compreender a transformação de Toucheng de um núcleo de fronteira em centro urbano da parte norte da planície de Lanyang.